13.12.07

Pecado Capital

Está nas bancas a edição 474 da revista Carta Capital (12 de dezembro) com a reportagem falando sobre os recém lançados livros escritos por ateus que cruzam sabres contra a religião, perguntando logo na capa se "deus existe?". O texto de Phydia de Athayde e Antonio Luiz M. C. da Costa vale a curiosidade de ver como uma revista político-econômica dialoga com um tema desse tipo, mas não sem uma ressalva requentada.

A sensação primária é de que o posicionamento imparcial típico do modo jornalístico de escrever dá às matérias um ar meio agnóstico, já que não se posiciona sobre a pergunta da capa. Ambos vão tecendo o ponto de vista principalmente católico, já que em sua mais recente encíclica o papa Joseph Ratzinger se dá ao incômodo de traçar umas poucas linhas contra o ateísmo, e expõe o ponto de vista ateu e seus questionamentos sobre a real utilidade da religião no mundo moderno. O que me chamou mais a atenção é um trecho da reportagem do Antônio onde ele diz que

"Pior ainda é que a discussão parece ignorar o debate filosófico do século XIX em diante para retomar a discussão praticamente no ponto em que estava em meados do século XVIII (...). O ateu Denis Diderot e seus colegas enciclopedistas (...) do século XVIII ficariam surpresos ao constatar como os propagandistas do ateísmo como Richard Dawkins e Christopher Hitchens conseguem causar impacto sem acrescentar nada fundamentalmente novo à polêmica - e sem parecer ter mais do que um conhecimento superficial desse período."

Aparentemente o tom final desse trecho deu a entender que criticar a religião com base nas observações práticas das ações e de sua influência no mundo moderno sem voltar os olhos para as antigas bases filosóficas do século retrasado seria um erro. É claro que o bom argumento se faz com racionalismo e devidamente embasado em provas e fatos. Mas não me parece justo desmerecer uma opinião não-preconceituosa, já que nas obras dos dois autores citados os argumentos contra o jugo eclesiástico são firmemente calcados em fatos reais, como a posição contra do Vaticano ao uso de preservativos ou a forma como os muçulmanos radicais tratam suas mulheres, entre outros crimes. São fatos que podem facilmente ser captados na grande mídia e que dizem muito sobre as intenções ou o bom senso de quem as defende. Quanto ao não acrescentar algo de novo ao debate, me pergunto se há realmente algo de novo que já não tenha sido sobejamente discutido, provado e deixado às claras por séculos de contenda racional. Mais evidências sobre agressões estúpidas movidas pela fé? Isso já temos em quantidade...

Sobre esse quase recém-promovida falácia "sabe com quem você DEVERIA estar falando?", lembrei-me de um artigo brilhante que li no blog Godless Lliberator, onde é perguntado sobre o que um ateu precisa saber para estar apto a criticar a religião. Pela visão dos religiosos, seria preciso um ateu formado com mérito em teologia, segundo Elizandro Max, dono do blog, que diz ainda

E adivinhem só: essa criatura existe, chame-se Edmund Standing e escreveu um dos artigos mais incisivos que li ultimamente. Ele confirma tudo aquilo que, sem estudar teologia, eu e a maioria dos ateus já desconfiávamos: a teologia é uma não-saber sobre algo que não existe, e é falaciosa a idéia de que a fé é uma coisa por demais profunda, que nunca pode ser compreendida pelos ateus. Uma resposta à altura para qualquer um que diga que os ateus não podem criticar a religião.

Leia aqui o artigo original de Edmund Standing, graduado em Teologia & Estudos Religiosos e mestre em Teoria Cultural e Crítica.

2 comentários:

Lucas Afonso disse...

Acho tudo uma questão de fé. Se você é ateu, você vai ter fé de que DEus não exista. Se você é cristão, fé em Deus.. e etc..

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robson disse...

Lucas afonso:
"Se você é ateu, você vai ter fé de que DEus não exista."

Então você tem fé em que Papai Noel não existe, né?
E também tem muita fé em que os deuses eslavos não existem, né isso?

Realmente somos crentes de fé fervorosa...