20.1.08

Bolachas de Chopp

Tenho uma coleção de bolachas de chopp. Na verdade, não chega a ser uma coleção de verdade, já que não estou catalogando nada ou sequer acondicionando cuidadosamente os disquinhos de forma a preservá-los da ação do tempo. Também não estou comprando edições limitadas de cervejarias famosas nem ao menos guardando relíquias como a bolacha da Brahma que o Noel Rosa tomou sua última cerveja no Feitiço da Vila em 1935 et coetera. Na verdade prego elas em um quadro de cortiça na minha parede e tem ficado bem legal, o que deve soar herético para um verdadeiro colecionador mas, como já disse, sou um embuste.

Então, meninos e meninas, quando estiverem em um bar e cair uma bolachinha na mesa, lembrem-se de mim. Se possível, escrevam alguma coisa nela e envie por carta comum mesmo, assim vou ter uma lembrança sua em um canto da casa que eu gosto muito, mais ou menos como um depoimento de orkut, só que com mais estilo! Prometo que retribuo o favor. Desde já, obrigado!

8.1.08

Que decepção, Chuck!

Após ter sido transformado em lenda por facts na internet criados por internautas saudosistas e adoradores de porradarias B da telona, o risível ator de filmes de ação Chuck Norris coleciona furadas religiosas a dar com pau. Sua terceira bola fora foi fazer parte do comício do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos Mike Huckabee em Iowa. Huckabee, para quem não sabe, é pastor batista e ex-governador do Arkansas, um cristão conservador de 52 anos que disse, durante um debate em maio de 2007, não acreditar na teoria da evolução.


No blog Godless Liberator pode-se acompanhar as duas primeiras gafes do barbudo bom de briga: quando defende a Bíblia na TV e ganha (ao meu ver em pleito apertadíssimo...) o Bad Faith Awards como o maior inimigo da razão do ano, após escrever em sua coluna semanal no site cristão conservador WorldNetDaily que se fosse eleito presidente dos EUA mandaria "tatuar uma bandeira americana com as palavras 'In God we trust' na testa de cada ateu".

Tsc! E eu gostava(!) de Walker Texas Ranger quando era pequeno...

17.12.07

Pedofilia e Igreja Católica

Apesar de vivermos em um país com alto índice de criminalidade em todas as camadas e setores sociais, reparo que mantemos sempre uma passividade incoerente com a revolta e a angústia que certamente acomete a todos os indivíduos cujo sangue não está estagnado nas veias. Sintoma agravado pela sensação de impunidade que as vantagens que o sistema penal possibilita a quem sabe como explorá-lo. E essa morosidade bovina não condiz com a vertiginosa cadeia de notícias que estala em nossa face a cada vez que ligamos a TV ou lemos um jornal matutino. Talvez por isso mesmo, não temos mais tempo para nos emocionar, dada a cadência de jabs de direita que levamos à cada assalto que disfarça o bizarro, sempre alheio, que nos entretém entre uma novela e outra.

Mesmo imerso nesse colóide viscoso (do qual a publicação infracitada certamente faz parte), não perdi a capacidade de me chocar, ainda bem. A Revista Superinteressante de dezembro trás na capa uma matéria que promete tumultuar as caixas de correio da redação para janeiro. "Sexo na Igreja", berra em letras garrafais, subentendendo que o delicado assunto pedofilia virá a tona. E dessa vez pegaram pesado. Fiquei perplexo com os casos de abusos de menores apurados pela reportagem dentro da igreja católica, alguns inéditos (pelo menos pra mim) e de uma frieza que me deixou até zonzo de repugnância.

É claro que tais crimes infelizmente não são novidade, mas o que leva homens religiosos (como se isso significasse algo...) a integrar a classe mais pérfida e digna de extermínio sumário que habita esse planeta? Algumas respostas empíricas, algumas tão bitoladas quanto estúpidas, no fórum da revista.

Vou transcrever com todos os grifos originais da matéria o primeiro parágrafo, que corresponde ao diário do padre Tarcísio Tadeu Sprícigo, condenado a 15 anos de prisão por abusos sexuais contra crianças.

"Idade: 7, 8, 9, 10. Sexo: masculino. Condição social: pobre. Condições familiares: de preferência, um filho sem pai, sozinho — ou com uma irmã. Onde procurar: nas ruas, escolas, famílias. Como fisgar: aulas de violão, coral, coroinha. Importantíssimo: prender a família do garoto. Possibilidades: garoto carinhoso, carente de pai. Sem moralismo. Atitudes minhas: ver do que o garoto gosta e atendê-lo em cobrança à sua entrega a mim. Como me apresentar: sempre seguro, sério, dominador, pai."

Não se trata de alguém cujas punções sexuais reprimidas eclodem em um impulso lascivo, comum a qualquer animal sob tais circunstâncias de celibato forçado. Trata-se de alguém que premedita a agressão e que sabe muito bem o que está fazendo, como comprova o diário onde descrevia o mudus operandi de cada um de seus ataques. Quando acusado pela primeira vez em 2001 na cidadezinha de Agudos por abusar de um menor de 9 anos, a medida tomada pela diocese responsável pela paróquia foi a de simplesmente transferir o pedófilo para outra cidade, onde ele pôde tranqüilamente repetir seu vício carnal e abjeto em mais duas crianças. Detalhes aqui.

Para não dizerem que se trata de preconceito contra um grupo religioso, dados de um estudo chamado John Jay Study que desde 1950 mapeia e cataloga as acusações feitas contra padres que abusaram de menores de 18 anos. Os números mostram que os casos de pedofilia dentro da igreja são de ordem tal que superam a incidência na sociedade secular. No mínimo quatro vezes mais crianças são estupradas ou levadas a ter relações sexuais com adultos dentro de uma igreja católica do que fora dela!

"Só nos EUA, único lugar com estatísticas concretas sobre padres que cometeram abusos sexuais [com menores], 4.392 sacerdotes católicos foram denunciados por esse tipo de crime entre 1950 e 2002. Isso dá 4% do total de pessoas que exerceram o sacerdócio no país nesse período. Um número alto, ainda mais tendo-se em mente que menos de 1% da população pode ser classificada como pedófila."

13.12.07

Pecado Capital

Está nas bancas a edição 474 da revista Carta Capital (12 de dezembro) com a reportagem falando sobre os recém lançados livros escritos por ateus que cruzam sabres contra a religião, perguntando logo na capa se "deus existe?". O texto de Phydia de Athayde e Antonio Luiz M. C. da Costa vale a curiosidade de ver como uma revista político-econômica dialoga com um tema desse tipo, mas não sem uma ressalva requentada.

A sensação primária é de que o posicionamento imparcial típico do modo jornalístico de escrever dá às matérias um ar meio agnóstico, já que não se posiciona sobre a pergunta da capa. Ambos vão tecendo o ponto de vista principalmente católico, já que em sua mais recente encíclica o papa Joseph Ratzinger se dá ao incômodo de traçar umas poucas linhas contra o ateísmo, e expõe o ponto de vista ateu e seus questionamentos sobre a real utilidade da religião no mundo moderno. O que me chamou mais a atenção é um trecho da reportagem do Antônio onde ele diz que

"Pior ainda é que a discussão parece ignorar o debate filosófico do século XIX em diante para retomar a discussão praticamente no ponto em que estava em meados do século XVIII (...). O ateu Denis Diderot e seus colegas enciclopedistas (...) do século XVIII ficariam surpresos ao constatar como os propagandistas do ateísmo como Richard Dawkins e Christopher Hitchens conseguem causar impacto sem acrescentar nada fundamentalmente novo à polêmica - e sem parecer ter mais do que um conhecimento superficial desse período."

Aparentemente o tom final desse trecho deu a entender que criticar a religião com base nas observações práticas das ações e de sua influência no mundo moderno sem voltar os olhos para as antigas bases filosóficas do século retrasado seria um erro. É claro que o bom argumento se faz com racionalismo e devidamente embasado em provas e fatos. Mas não me parece justo desmerecer uma opinião não-preconceituosa, já que nas obras dos dois autores citados os argumentos contra o jugo eclesiástico são firmemente calcados em fatos reais, como a posição contra do Vaticano ao uso de preservativos ou a forma como os muçulmanos radicais tratam suas mulheres, entre outros crimes. São fatos que podem facilmente ser captados na grande mídia e que dizem muito sobre as intenções ou o bom senso de quem as defende. Quanto ao não acrescentar algo de novo ao debate, me pergunto se há realmente algo de novo que já não tenha sido sobejamente discutido, provado e deixado às claras por séculos de contenda racional. Mais evidências sobre agressões estúpidas movidas pela fé? Isso já temos em quantidade...

Sobre esse quase recém-promovida falácia "sabe com quem você DEVERIA estar falando?", lembrei-me de um artigo brilhante que li no blog Godless Lliberator, onde é perguntado sobre o que um ateu precisa saber para estar apto a criticar a religião. Pela visão dos religiosos, seria preciso um ateu formado com mérito em teologia, segundo Elizandro Max, dono do blog, que diz ainda

E adivinhem só: essa criatura existe, chame-se Edmund Standing e escreveu um dos artigos mais incisivos que li ultimamente. Ele confirma tudo aquilo que, sem estudar teologia, eu e a maioria dos ateus já desconfiávamos: a teologia é uma não-saber sobre algo que não existe, e é falaciosa a idéia de que a fé é uma coisa por demais profunda, que nunca pode ser compreendida pelos ateus. Uma resposta à altura para qualquer um que diga que os ateus não podem criticar a religião.

Leia aqui o artigo original de Edmund Standing, graduado em Teologia & Estudos Religiosos e mestre em Teoria Cultural e Crítica.