11.6.11

A base da pirâmide

Não sei se já aconteceu e eu não assisti, mas como dito pelo Roney Belhassof pelo twitter, alguma emissora brasileira teria coragem de fazer um teste como esse em seu horário nobre?

Existe um ponto (geralmente de ebulição) onde a liberdade de comunicação da mídia é uma liberdade concedida pela parcela mais conservadora da audiência. E essa liberdade concedida é diretamente ligada à opinião masculina predominante, uma vez que o beijo gay feminino gera menos asco à opinião pública (somado ao fato que é uma fantasia bastante comum no imaginário da maioria dos homens) que o beijo gay masculino, como pode ser visto no vídeo. Ou seja: a homofobia é um tijolo secundário da pirâmide dos preconceitos sustentada pela base monolítica do machismo.

Interessante constatar que ambos os movimentos, pró-homoafetivo e feminista, são percebidos de forma diferente hoje. O primeiro é muito mais aceito por uma parcela mais esclarecida da população que o segundo, que é vilipendiado dos muito ricos aos muito pobres, uma vez que é um traço sedimentar muito mais antigo que o próprio dinheiro. Na verdade é mais antigo que nossa civilização, uma vez que compartilhamos ascendência com símios de sociedade extremamente patriarcais, com registro de dominação e violência contra suas fêmeas, outros machos e o que quer que entre em seu território. A dominação masculina sobre a figura feminina une todos os estratos de uma sociedade com uma cola mais firme que qualquer modelo econômico ou polítco já criado e extremamente difícil de se dissolver.

5.6.11

As bolhas no meu sangue


"O nitrogênio residual é o nitrogênio remanescente no corpo após um mergulho, cujo tempo de demora para ser eliminado depende do tempo de mergulho e da profundidade atingida. (...) Caso a eliminação do nitrogênio residual seja deficiente (...) pode ocorrer a geração de bolhas de nitrogênio que não conseguem ser eliminadas do corpo humano, ficando retidas em tecidos ou na circulação sanguínea. Esta ocorrência é chamada de doença descompressiva." — Wikipedia.


Quando passo pelo aquário que decora o hall de um dos prédios da faculdade onde dou aula, sempre paro um minuto para olhar os peixinhos levando sua vida encaixotada. Eles, assim como nós, estão sempre alheios a um detalhe que só nos damos conta raramente: ambos, eu e os peixinhos, estamos mergulhados em um fluido, ele no líquido e eu no gasoso. E nem nos damos conta disso, a não ser nesses momentos reflexivos.

Peixes não costumam se aventurar muito do lado de fora de seu ambiente (alguns, sorte nossa, desconhecem essa regra...), mas nós humanos desenvolvemos um sem número de técnicas, ciências, equipamentos, máquinas e veículos que nos fazem ir lá onde os peixes vivem, mesmo nas profundidades mais abissais junto de seus parentes mais bizarros. O problema de ir tão fundo (e para humanos, qualquer 10m já configura uma atmosfera extra de pressão sobre nossos frágeis corpos) nem é vencer a profundidade, mas voltar dela.

Não sei quanto falta. Talvez nunca chegue a respirar ar limpo e puro de novo. Mas a pressão incômoda das tradições, da religião, da misoginia, principalmente do cáustico e silencioso machismo, talvez a substância mais resiliente da tabela periódica dos preconceitos, vai ficando cada vez mais para baixo. Já consigo ver o bruxulear da luz clara do sol atravessando a ondulante linha d'água. Tenho algumas bolhas no sangue, mas vão ser reabsorvidas ao longo da subida. Se ainda estou consciente que ainda estou imerso no frio oceano cultural que fui mergulhado quando criança, é com orgulho que vejo que estou hoje mais perto da superfície que estava ontem.

19.4.11

Especial Semana Santa - CARTA AOS GAÚCHOS

CAPÍTULO I

1 Estas são as palavras que O SENHOR falou a Sargento.

2 Há de fazer um banquete para muitos, ó servo do carvão Saci. Tu tomarás para si uma parte de carne de boi maturada, e a peça não poderá pesar mais do que 200 dracmas de prata, poias assim O SENHOR viu que era bom e não alcatra.

3 E tomarás também para si um porco. E esse porco deverá ser sacrificado e suas víceras retiradas, limpas, cozidas e purificadas. E a carne deverá ser temperada e colocada dentro das víceras do porco. E faleilo-ás antes da carne para que o fogo se alimente da gordura santa e não se apague, pois assim ordena O SENHOR.

4 E de galinha e frango tomarás seus membros e seus miúdos e porás também no fogo, para que tua glória e sabor sejam preservados. Acautelai para que não demore muito, ordena O SENHOR, para que tenra e santificada permaneça sua santa refeição.

5 Na sexta edificarás o MEU nome. E também no sábado executarás o rito. E no domingo serás santo entre os santos, pois em ti recai o júbilo sagrado.

6 Em qualquer dia que não falte na geladeira fermentado de cevada, o pão líquido sagrado. E sairás de lá ébrio, pois assim ordena O SENHOR, mas manterás a compostura pois tu és foda. E se servirás primeiro àquele que se assenta à direita do altar de tijolos, que queima a face sobre as brasas do altar, pois dele é a glória de servir em SEU nome.

7 E edificarei a grelha, e subirás o perfume de gordura, que é boa aos sentidos DO SENHOR. E virarás de tempos em tempos, e espetarás, e testarás a consistência, e provarás um naco a cada quatro, pois tu és sacerdote do fogo, e és tu que estás sempre a alimentá-lo.

8 E imolarás a carne e o pão de alho. E não deixarás que o fogo a queime, pois tu controlarás a salmoura que tempera e sossega a brasa. E louvará MEU nome em teu altar. E não comerás da mesa do almoço senão carne de toda ave, e de todo suíno e de todo boi e de tudo aquilo que se banhar nas chamas do altar.

9 E ferirás a carne com lâmina afiada, em pedaços sangrentos para aqueles que gostam de sangrento, e ao ponto àqueles que gostam ao ponto e quem gostar de assaz assada que se vire, pois tu não comerás carne ressequida, assim intima o SUPREMO SENHOR DOS EXÉRCITOS.

10 Acém.

11.4.11

A forma mais abjeta de proselitismo religioso

Eis que um tal de Fabio Barros chegou na minha página com a seguinte ode à Desgramática:

"o cara qu abril fogo na escola em realengo era um maniaco relegioso ok tudo bem, ele nao era cristao seguia uma linha de pensamentos terrorista dos muçulmanos, com a visao religiosa dele ele matou 13 e feriu alguns, mas pergunto os cientistas que fizeram a bomba atomica que exteminou as duas cidades japonesas na segunda guerra mundial, eram ateus ceticos nao mataram mais? com o ceticismo deles do que o maniaco que atirou na escola com a visao relegiosa dele?" [sic]

Pra começar, culpar os cientistas do Projeto Manhattan pelas mortes em Hiroshima e Nagasaki é o mesmo que acusar a Smith & Wesson por fabricar os revólveres que o Wellington usou para fazer o que fez. Não confunda o agente causador com as ferramentas. No caso japonês, quem apertou o gatilho foi o governo americano, muito protestante até então.

Ao contrário que alguns jornalistas andaram falando por aí, tampouco foi a religião dele a causadora da calamidade. Foi a sociopatia que ele desenvolveu, causada sabe-se lá pelo que, nunca saberemos. Ele encontrou acolhida naquele sincretismo maluco que alimentou seu ódio pelas mulheres (sim, embora sejam crianças, a maioria era do sexo feminino), que mistura preces a Maomé, versículos da Bíblia e suras do Corão. Em seus estudos ele teve exemplos suficientes de como agir para punir aqueles que eu sua mente doentia achava que mereciam morrer. Se a religião teve algum papel nisso, foi a de dar subsídios de ação e abertura de precedentes para fazer o que fez, o que é pior, sem sentir culpa e até com a sensação heróica de martírio.

Aproveitando a deixa, já que o assunto é proselitismo religioso, a coisa mais abjeta, imoral e nojenta que pude ler nesses dias de sofrimento para dezenas de famílias, centenas de familiares e milhões de brasileiros foi publicada em vários blogs assembleianos que um garoto sobreviveu ao massacre pois orou a Deus e o assassino poupou-o. Além do fato do assassino estar visando desde o início as meninas (só posso imaginar que os garotos mortos foram infelizmente pegos no tiroteio visado), há a explícita cantata de vitória por parte daqueles que foram afortunados de escapar à tragédia. Delegar a própria fé foi de uma imundície de caráter que só entre esse tipo de pessoa é comum encontrar, a mesquinharia e o egoísmo orgulhoso de pisar sobre os sentimentos e a infelicidade de quem foi vítima da fatalidade. Um ego do tamanho do planeta por achar que o próprio umbigo abençoado e dos outros não é.

Só dei esse mundo de atenção para o cara que foi lá comentar na minha página pois quero deixar bastante claro o quanto eu desprezo esse tipo de atitude proselitista, solipsista e vergonhosa, onde tenta-se desesperadamente justificar o ato através de uma visão polarizada, curta, pequena, indigna e tacanha como que foi levantada. Junto com qualquer idéia de tradição, essa é uma visão escrota que merece ser combatida todos os dias.